Texto Base: Mateus 9.9
“Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu.” (Mateus 9.9)
Há uma verdade fundamental sobre a nossa existência que, muitas vezes, tentamos ignorar: fomos criados para Deus. Fomos feitos para encontrar n’Ele a nossa satisfação plena, o sentido da vida e o descanso da alma. No entanto, a história humana é marcada por desvios desse propósito. Em vez de vivermos para Deus, passamos a improvisar caminhos, tentando preencher o vazio do coração com aquilo que nunca poderá nos satisfazer.
O pecado exerce exatamente esse papel. Ele nos seduz, nos engana e nos conduz a buscar satisfação em nossos próprios interesses. Não é algo ocasional, mas uma inclinação natural do coração humano. Um exemplo contemporâneo disso pode ser visto nas redes sociais, onde algoritmos identificam aquilo que nos atrai e passam a nos oferecer continuamente mais do mesmo. Não se trata apenas de tecnologia, mas de uma dinâmica que revela o nosso interior: somos facilmente atraídos por aquilo que alimenta nossos desejos.
É nesse contexto de distração, sedução e busca por satisfação fora de Deus que o texto de Mateus 9.9 nos apresenta uma intervenção graciosa e poderosa de Jesus.
Mateus, também chamado Levi, era um publicano, ou seja, um coletor de impostos a serviço do Império Romano. Para compreender o impacto desse chamado, é importante lembrar que a sociedade da época era rigidamente estruturada em classes, como patrícios, plebeus, clientes, escravos e libertos. Dentro desse cenário, os publicanos ocupavam uma posição extremamente malvista.
Eles possuíam contratos com o governo romano que lhes davam o direito de cobrar impostos do próprio povo judeu. Na prática, isso frequentemente resultava em abusos, enriquecimento ilícito e exploração. Por esse motivo, eram considerados traidores, corruptos e moralmente desprezíveis. Eram rejeitados social e religiosamente, vistos como indignos de qualquer consideração espiritual.
Mateus estava em seu posto de coleta em Cafarnaum, uma cidade onde Jesus desenvolvia grande parte de Seu ministério. Foi ali, naquele ambiente marcado por interesses financeiros e rejeição social, que Jesus o viu, o chamou e iniciou uma transformação profunda em sua vida. O próprio evangelista registra esse momento, mostrando que o encontro com Cristo não apenas trouxe perdão, mas também o inseriu em uma nova realidade de relacionamento e propósito.
Diante disso, podemos compreender a mensagem central deste texto: o chamado de Jesus é improvável, intencional e irresistível.
1. Um Chamado Improvável (como somos vistos)
Do ponto de vista humano, o chamado de Mateus não fazia qualquer sentido. A mentalidade judaica da época considerava praticamente impossível que um publicano fosse salvo. Ele era visto como alguém completamente entregue à cobiça, dominado pelo pecado e distante de Deus. Não havia expectativa de redenção para alguém como ele.
Ao mesmo tempo, é possível imaginar que o próprio Mateus lidava com conflitos internos. Talvez se comparasse aos fariseus e pensasse que, embora fosse rejeitado, ao menos não vivia na hipocrisia religiosa. Ainda assim, ele sabia que sua condição não era aceitável diante de Deus. O peso da rejeição externa se somava à consciência de sua própria realidade.
Esse cenário levanta uma questão importante: quem imaginaria que alguém como Mateus seria alvo do olhar de Jesus? Humanamente falando, ele era improvável demais para ser chamado.
As aplicações desse ponto são profundas. Aos olhos humanos, não há nada em nós que justifique o chamado de Deus. Não há mérito, não há destaque, não há condição que nos torne dignos desse convite. E, ainda assim, o evangelho nos mostra que o Senhor nos vê de uma maneira que vai além das aparências e das nossas próprias limitações.
Muitas vezes, nem nós mesmos conseguimos nos enxergar corretamente. Somos influenciados pelo olhar dos outros ou pelas nossas próprias distorções. No entanto, o que realmente importa não é como somos vistos pelas pessoas, nem como nos avaliamos, mas o fato de sermos vistos por Jesus. É esse olhar que redefine nossa identidade e abre caminho para a transformação.
2. Um Chamado Intencional (somos chamados)
O encontro entre Jesus e Mateus não foi fruto do acaso. Jesus não passou por Cafarnaum de maneira aleatória, nem olhou para Mateus por coincidência. Seu ministério naquela cidade já vinha sendo marcado por sinais claros de Sua autoridade: curas, milagres e o perdão de pecados, como no caso do paralítico. É muito provável que Mateus já tivesse ouvido falar desses acontecimentos ou até mesmo os presenciado.
Quando Jesus se aproxima da coletoria, Ele não apenas vê um homem sentado em seu trabalho. Ele vê alguém que precisa ser salvo. Seu olhar é intencional, direcionado e cheio de propósito. E, diante disso, Ele pronuncia uma ordem simples, mas profundamente transformadora: “Segue-me”.
Esse chamado revela algo essencial sobre o caráter de Cristo. Ele não é limitado pelas categorias humanas. Aquilo que afastava Mateus das pessoas (sua profissão, sua reputação, sua história) não o afastou de Jesus. Pelo contrário, foi justamente ali que a graça o alcançou.
Isso nos leva a aplicações igualmente importantes. Jesus não apenas chamou Mateus, mas quis salvá-lo. Há intenção, há vontade, há propósito em Seu agir. Da mesma forma, Ele continua chamando pessoas hoje. Seu chamado não é genérico, mas pessoal. Ele conhece cada coração e sabe exatamente o que precisa ser transformado.
Além disso, esse chamado nos lembra da soberania de Deus. Ele tem autoridade para transformar desejos, renovar pensamentos e mudar trajetórias. Nada está fora do alcance do Seu poder. E mais do que isso, Ele conduz tudo de acordo com um plano perfeito. Assim como havia um propósito específico para a vida de Mateus, há também um propósito para cada um de nós.
3. Um Chamado Irresistível (somos transformados)
A resposta de Mateus ao chamado de Jesus é registrada de forma breve, mas extremamente significativa: “Ele se levantou e o seguiu”. Não há resistência, negociação ou adiamento. Há uma resposta imediata e decisiva.
Isso nos mostra que o chamado de Jesus, quando é eficaz, é também irresistível. Não porque o ser humano perde sua vontade, mas porque o próprio Deus transforma o coração. Aquilo que antes dominava a vida de Mateus — seus interesses financeiros, sua posição social, suas prioridades — perde força diante da presença de Cristo.
A partir daquele momento, Mateus passa a ouvir uma nova voz, a voz do Senhor da sua vida. Ele abandona antigos caminhos, rompe com antigos vínculos e deixa para trás aquilo que antes o prendia. Ele se liberta das “redes” que o mantinham cativo e passa a viver sob uma nova direção.
Essa transformação não se limita a uma mudança de comportamento. Ela envolve um novo propósito. Mateus não apenas segue a Jesus, mas passa a servi-lo. A tradição cristã indica que ele levou o evangelho a diferentes regiões, como Egito e Etiópia, demonstrando que sua vida foi completamente redirecionada.
As aplicações desse ponto reforçam a natureza poderosa do chamado de Cristo. Quando Jesus fala, Sua palavra não é apenas informativa, mas eficaz. Ela produz aquilo que ordena. Seu chamado tem poder para transformar vidas de maneira real e profunda.
Quando ouvimos a voz de Cristo de forma verdadeira, outras vozes começam a perder espaço. Aquilo que antes nos atraía já não exerce o mesmo domínio. Aos poucos, passamos a ser atraídos por Ele e encontramos n’Ele a satisfação que antes buscávamos em outras coisas.
Isso revela uma mudança essencial: não se trata apenas de abandonar o pecado, mas de encontrar em Cristo algo infinitamente superior. É essa nova satisfação que sustenta uma vida transformada e direcionada ao propósito de Deus.
Conclusão
O chamado de Mateus não é apenas um registro histórico, mas uma demonstração clara de como Deus age na vida das pessoas. Ele continua chamando de maneira improvável, alcançando aqueles que, aos olhos humanos, não seriam considerados dignos. Ele chama de forma intencional, com propósito definido e conhecimento pleno de quem somos. E Ele chama de maneira irresistível, transformando o coração e redirecionando a vida.
Diante disso, a pergunta que permanece não é apenas teórica, mas profundamente pessoal: você já ouviu esse chamado? E mais do que isso, você tem respondido a ele?
A resposta de Mateus continua sendo o modelo mais simples e mais profundo. Ele se levantou e seguiu a Jesus. Esse é o convite que permanece. E essa é a decisão que define o rumo de toda a vida.
Rev. Aldo Marcos Teixeira