O chamado de Mateus

“Quando Jesus saiu dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e lhe disse: — Siga-me! Ele se levantou e o seguiu.” (Mateus 9.9)

Fomos criados por Deus para encontrar n’Ele a nossa satisfação plena. Essa é a verdade fundamental da existência humana. No entanto, o pecado nos afastou desse propósito e distorceu os nossos afetos. Em vez de buscarmos a Deus, passamos a ser naturalmente inclinados aos nossos próprios interesses.

Essa inclinação se revela de muitas formas no cotidiano. Basta observar como funcionam as redes sociais e os ambientes digitais. Elas nos oferecem exatamente aquilo que mais nos atrai, criando verdadeiras armadilhas para manter nossa atenção cativa. Isso não acontece por acaso. Somos facilmente atraídos por aquilo que alimenta nossos desejos. Essa realidade não é nova. Ela apenas ganhou novas formas. O coração humano continua sendo o mesmo: inclinado a si mesmo, distante de Deus e facilmente seduzido por aquilo que promete satisfação, mas nunca entrega plenamente.

É nesse contexto que encontramos o chamado de Mateus. Mateus, também chamado Levi, era um coletor de impostos, um publicano (Mt 10.3). Para compreendermos o peso desse chamado, precisamos entender sua posição na sociedade.

Na estrutura romana, havia diferentes classes: patrícios (aristocratas), plebeus (comerciantes), clientes (homens livres), escravos e libertos. Os publicanos não eram uma classe formal, mas ocupavam uma função extremamente desprezada. Eles trabalhavam mediante contrato público para arrecadar impostos e tinham liberdade para cobrar além do valor exigido, obtendo lucro pessoal.

Por serem protegidos por Roma e explorarem o próprio povo, eram considerados traidores pelos judeus. Eram odiados, marginalizados, excluídos da convivência religiosa e vistos como pessoas moralmente corrompidas.

Mateus estava em seu posto de coleta, em Cafarnaum (Mt 9.1,9), imerso nessa realidade. Era um homem envolvido com o pecado, consciente de sua condição e distante de Deus. É exatamente nesse cenário que Jesus o encontra e o chama. Veremos que o título desta mensagem é uma realidade: um chamado improvável, intencional e irreversível de Jesus.

1. Improvável (Fomos vistos)

Aos olhos dos judeus, um publicano não poderia ser salvo. Ele era visto como alguém entregue ao pecado, dominado pela ganância e completamente fora do alcance da graça.

Mateus vivia enredado por sua cobiça. Seu trabalho o colocava em constante contato com dinheiro, exploração e injustiça. Ainda que pudesse justificar sua vida (talvez comparando-se com a hipocrisia de alguns fariseus) ele não poderia imaginar que alguém como Jesus olharia para ele com graça.

Estamos diante de um homem que não era considerado parte do povo, rejeitado social e espiritualmente, distante de Deus e consciente disso. Sua condição era indigna. A própria narrativa de Zaqueu (Lc 19) mostra como esses homens eram vistos com desprezo.

Mas, apesar de tudo isso, Jesus o viu.

Essa é a primeira verdade transformadora do texto. Antes de qualquer movimento de Mateus, houve um olhar de Cristo sobre ele.

Ao olharmos para nossa própria condição, percebemos que não somos diferentes. A Escritura afirma que "todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Rm 3.23) e que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Não havia mérito algum em nós. Não havia nada que pudesse justificar um chamado da parte de Deus.

Ainda assim, o Senhor nos viu.

Ele nos viu quando nem nós mesmos compreendíamos nossa condição. Ele nos viu quando estávamos distraídos, presos aos nossos próprios interesses. E isso muda completamente a perspectiva. Não importa como os outros nos enxergam. Não importa nem mesmo como nós nos enxergamos. O que realmente importa é sermos vistos por Cristo.

2. Intencional (Somos chamados)

O encontro de Jesus com Mateus não foi acidental. Jesus sabia exatamente o que estava fazendo em Cafarnaum.

Aquele momento fazia parte de um contexto maior. Jesus já havia realizado milagres, curado enfermos e, inclusive, perdoado os pecados de um paralítico (Mt 9.1–8). Tudo isso certamente chegou aos ouvidos de Mateus. Ele pode ter visto ou ouvido relatos sobre aquele homem que não apenas curava, mas perdoava pecados.

E então, no tempo certo, Jesus olha para ele.

Não foi um olhar genérico. Foi um olhar direcionado, intencional, cheio de propósito. Jesus viu alguém que precisava ser salvo, e decidiu salvá-lo.

“Segue-me.”

Essa mesma realidade se aplica a nós. O chamado de Deus não é fruto do acaso. Ele é intencional. Jesus quis chamar Mateus, e Ele quis (e ainda quer) nos chamar. Ele tem autoridade para transformar corações, redirecionar desejos e mudar completamente a trajetória de uma vida. Nada está fora do Seu controle.

A Palavra de Deus nos lembra que "o Senhor fez todas as coisas para determinados fins" (Pv 16.4) e que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28). Deus tem um plano. E esse plano não falha.

3. Irresistível (Somos transformados)

A resposta de Mateus é surpreendentemente simples: “Ele se levantou e o seguiu.”

Não há resistência, negociação ou demora. O chamado de Cristo é eficaz. Quando Jesus chama, algo acontece no interior do homem. Não se trata de uma imposição mecânica, nem de uma mudança superficial. Trata-se de uma transformação real, profunda e direcionadora.

Mateus ouviu a voz do Senhor da sua vida.

Aquilo que antes o atraía perde a força. Os interesses mudam. Os caminhos são abandonados. Ele se levanta e segue. Ele é liberto daquilo que o prendia.

Isso não significa que, a partir daquele momento, ele se tornou perfeito ou que sua mente foi instantaneamente transformada em todos os aspectos. Significa que sua direção mudou. Ele agora tem um novo Senhor, um novo propósito, um novo caminho. Segundo tradições históricas antigas, Mateus teria levado o evangelho a regiões como o Egito e a Etiópia. Embora essas informações não estejam nas Escrituras, apontam para uma vida que passou a ser totalmente dedicada a Cristo.

O chamado de Jesus é irresistível porque é poderoso.

O que Ele diz, Ele faz acontecer. Sua Palavra não volta vazia. Quando ouvimos Sua voz, outras vozes perdem força. Aquilo que antes dominava o coração perde o controle. Passamos a ser atraídos por Cristo. Passamos a encontrar n’Ele a nossa satisfação. E passamos a viver para o Seu propósito.

Conclusão

A história de Mateus não é apenas o relato de um chamado individual. É o retrato da forma como Deus age na vida de pecadores. Ele nos vê quando ninguém mais vê. Ele nos chama de forma intencional, dentro de um plano perfeito. E Ele nos transforma de maneira eficaz, conduzindo-nos a uma nova vida.

Esse texto nos confronta com uma pergunta inevitável: o que temos feito com o chamado de Cristo?

Talvez alguém se veja como improvável demais, distante demais ou indigno demais. Mas é exatamente nesse tipo de cenário que a graça de Deus se manifesta.

Cristo continua chamando.  E quando Ele chama, não é apenas um convite para melhorar de vida. É um chamado para deixar tudo, levantar-se e segui-lo.  Que possamos ouvir a Sua voz, calar todas as outras e encontrar n’Ele aquilo para o qual fomos criados: uma vida plenamente satisfeita em Deus.

Rev. Aldo Marcos Teixeira